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Abelha do semiárido pode sofrer com o aquecimento

No decorrer do tempo, os seres vivos evoluíram a ponto de se adaptar e sobreviver em diferentes condições. Se um organismo tem uma adaptação vantajosa, ele é mais propenso a sobreviver, reproduzir e transmitir a informação genética para às futuras gerações. Estudos nesse sentido são realizados com abelhas na Universidade Federal Rural do Semi-Árido. As pesquisas, que acontecem no Espaço ASA, do curso de Ecologia, investiga como as abelhas reagiriam ao aumento da temperatura ambiente. Essa hipótese é prevista para os próximos anos na região do semiárido nordestino.

A abelha jandaíra, espécie comum na região, é a principal dentre as pesquisadas. Lá, estuda-se o comportamento, a fisiologia e a ecologia, dentro do grupo de abelhas sociais. Na fisiologia, se busca entender como esses animais conseguem suportar o calor elevado da caatinga. “Ao contrário dos seres humanos, as abelhas não conseguem regular a temperatura corporal, estando sempre sujeitas à temperatura ambiente. No semiárido, às 10 horas da manhã, uma flor, por exemplo, fonte de alimento desses animais, alcança temperaturas de até 50 °C”, explica o professor responsável pelo Espaço ASA, Michael Hrncir, do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde da Ufersa.

Na ecologia, outro fator está relacionado à temperatura dentro da colônia, onde as abelhas em desenvolvimento não suportam o calor elevado. Segundo o professor Michael, elas suportam em média 34 ou 36 °C. “Quando a temperatura dentro da colônia alcança níveis mais elevados, elas morrem”, afirma. O objetivo da pesquisa é tentar descobrir como as abelhas se comportam quando a temperatura elevada do ambiente se transfere numa temperatura ainda maior dentro da colônia. Outro fator observado é o que as abelhas fazem para resfriar o ninho.

A pesquisa avalia também a viabilidade espermática, ou seja, a reprodução, pois os espermas dos machos também são reduzidos em temperaturas mais elevadas. “Quando os espermatozoides dos machos param de ser viáveis, a rainha, que põe todos os ovos, não consegue mais pôr ovos fertilizados, então à colônia vai aos poucos morrendo”, afirmou. Acima de 34°C quase todos os espermatozoides não sobrevivem. Ainda segundo o professor Michael Hrncir, o processo de fisiologia térmica visa descobrir o que estas abelhas fazem para se reproduzir quando a colônia se encontra exposta a altas temperaturas.

A pesquisa já constatou que nas colônias de jandaíra, também conhecidas como campeiras ou forrejadoras, ocorrem diferenciações de comportamento com a mudança da temperatura. As colônias estando expostas ao sol, por exemplo, as abelhas cessam ou diminuem a coleta de comida, optando permanecerem no ninho para resfriar o ambiente. “Para amenizar a temperatura dentro da colônia, algumas das abelhas batem suas asas em conjunto, como uma espécie de ventilador. Se isso acontece por um longo período de tempo, elas se concentram na termorregulação e param de coletar comida para manter a colônia”, afirma o professor.

Com esse experimento, a pesquisa simulou a mudança climática para ver como as abelhas reagiriam com a temperatura elevada. O estudo concluiu que elas conseguem se adaptar, porém, com perdas para o desenvolvimento da colmeia. Menos comida, maior gasto de energia para a regularização da temperatura. Assim, a tendência é que as abelhas migrem para ambientes de clima mais amenos. 

Criar condições favoráveis para as abelhas

O Espaço ASA é um meliponário científico que funciona como um hotel para as abelhas encontradas na caatinga, desenvolvido na universidade em uma área restaurada com plantas nativas para incrementar a vegetação e também para atrair insetos polinizadores que contribuem com a conservação da biodiversidade local. Além de fornecer pólen e néctar para as abelhas, as flores disponibilizam alimento para vários grupos de visitantes florais como, por exemplo, borboletas, vespas, moscas, besouros, aves, morcegos e outros.

O Espaço ASA foi criado como modelo de restauração ambiental, onde foi restaurado um espaço vazio com plantas nativas da caatinga e algumas plantas ornamentais. Inicialmente, o projeto se dedicou a investigar de que maneira o melhoramento ambiental atrai abelhas para a área, a partir de um levantamento de quais abelhas mais ocorrem nesta região, levantamento que é feito a cada 15 dias.

Atualmente, no espaço ASA são desenvolvidas atividades centradas em dois eixos: um de pesquisa e outro de educação ambiental. Na linha de pesquisa o meliponário realiza experimentos com abelhas nativas da caatinga, que são tanto abelhas sociais, que formam colônias, quanto abelhas solitárias, que vivem sozinhas.

Com o melhoramento ambiental o esperado é que mais espécies sejam atraídas para o local, incluindo, outros animais propiciando uma maior diversidade de espécies. Paralelo a isso, o projeto está fazendo um levantamento de abelhas e insetos na Fazenda Experimental Rafael Fernandes, pertencente à universidade. Lá, existe uma área propícia de vegetação da caatinga, com sua diversidade de insetos. O que se espera é que um dia o Espaço ASA contemple a mesma biodiversidade que se encontra na fazenda experimental.

O Espaço ASA conta também com uma palioteca – uma biblioteca de grãos de pólen – pois cada planta tem seu particular grão de pólen, sendo possível reconhecer a planta através do grão. Mais de 200 espécies de pólen de plantas da caatinga se encontram atualmente na palioteca. “Quando a abelha volta para a colônia, ela volta com certa quantidade de pólen, esse pólen é retirado do corpo da abelha e se compara com os pólens que constam na palioteca”, explica o professor Hrncir.

Além das atividades de pesquisas científicas, o Espaço ASA também é utilizado para aulas de educação ambiental, permitindo também o resgate da conveniência com o semiárido. Ao longo do ano tem recebido ainda a visita de alunos de outras instituições, escolas de Mossoró, onde as crianças aprendem a importância das plantas para as abelhas e a importância das abelhas pras plantas, e têm a oportunidade de conhecer as plantas da caatinga. “A maioria das frutas que comemos são frutas de plantas que dependem da polinização das abelhas, e com esse contato as crianças podem compreender a importância de manter a diversidade de abelhas”, destaca o professor Michael.

Fontes: cienciaeclima.com.br; Universidade Federal Rural do Semi-Árido
Imagem: UFERSA/ Eduardo Mendonça – abelha jandaíra

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